ESG

ESG não falha. O problema está em como as empresas decidem.

Por Camila Guissoni · 14 de abril de 2025 · 9 min de leitura

Quando a crítica ao ESG erra o alvo

Nos últimos anos, tornou-se comum atribuir ao ESG a responsabilidade por crises institucionais, incoerências reputacionais ou acusações de greenwashing. Sempre que algo dá errado, a sigla aparece como explicação conveniente: o ESG não funcionou, virou discurso, foi apenas marketing.

Essa leitura costuma ser confortável, mas pouco precisa. Ela desloca o foco do problema real, o processo decisório, para o conceito. ESG, na maioria das vezes, não é a causa da falha. É apenas o lugar onde a falha se torna visível.

O que falha, de forma recorrente, é a maneira como as empresas tomam decisões estratégicas mantendo ESG fora do núcleo onde escolhas relevantes são feitas.

ESG entra tarde demais na maioria das organizações

Em muitas organizações, a sequência é previsível. A estratégia é definida com base em critérios tradicionais: crescimento, eficiência operacional, pressão competitiva ou metas financeiras. Só depois surge a pergunta sobre ESG, geralmente formulada em termos de comunicação, mitigação de risco reputacional ou enquadramento em compromissos públicos já assumidos.

Nesse modelo, ESG não orienta a decisão. Ele tenta corrigir seus efeitos. Quando isso acontece, a empresa passa a sustentar narrativas que não correspondem ao modo como realmente decide. Não se trata, na maior parte das vezes, de má-fé deliberada, mas de uma dissociação estrutural entre discurso e governança. Essa dissociação raramente se sustenta no médio prazo.

Greenwashing não começa na comunicação

Existe um equívoco recorrente no debate público: tratar greenwashing como um problema de mensagem exagerada ou marketing irresponsável. Essa leitura é superficial. O greenwashing, na maior parte dos casos, é um sintoma tardio de decisões tomadas muito antes, em instâncias onde critérios ambientais, sociais e regulatórios não tiveram peso real.

O caso da Volkswagen, amplamente documentado por órgãos reguladores e pela imprensa internacional, ajuda a entender esse mecanismo com clareza. O episódio mostrou como uma decisão estratégica tomada sob pressão por desempenho acabou desconsiderando riscos ambientais, regulatórios e reputacionais relevantes. O greenwashing, nesse contexto, não foi um ponto de partida, mas a consequência de uma decisão que já havia sido tomada fora dos critérios que a própria empresa afirmava adotar.

Caso documentado · Volkswagen, 2015

O escândalo Dieselgate: quando a decisão estratégica ignora os próprios critérios

O mecanismo

Software detectava testes de emissão e alterava o comportamento do motor. Em uso normal, o carro emitia até 40 vezes o limite legal de NOx.

A escala

11 milhões de veículos afetados em todo o mundo. Multas, recalls e acordos judiciais ultrapassaram US$ 30 bilhões.

A raiz

Não foi falha de comunicação. Foi uma decisão estratégica tomada sob pressão por performance, que ignorou riscos ambientais, regulatórios e reputacionais.

O greenwashing, nesse caso, não foi ponto de partida. Foi a consequência visível de uma decisão que já havia sido tomada fora dos critérios que a própria empresa afirmava adotar.

Esse padrão não é isolado nem restrito a grandes escândalos. Ele aparece sempre que a decisão estratégica ignora limites relevantes e a comunicação é chamada a sustentar, posteriormente, uma coerência que não existiu no momento da escolha.

Quando ESG não é critério, ele vira enfeite

Tratar ESG como área, e não como critério de decisão, produz um efeito recorrente. A organização continua operando sob a mesma lógica de sempre, mas espera resultados diferentes no campo da reputação, da legitimidade social e da sustentabilidade de longo prazo.

Nessas circunstâncias, ESG tende a assumir funções limitadas e defensivas: organizar relatórios, responder a questionamentos externos ou sustentar compromissos públicos que não atravessam o processo decisório real. Nada disso é irrelevante, mas tudo isso é insuficiente quando ESG não participa das decisões que definem investimento, expansão, modelo produtivo e posicionamento institucional.

Decidir com ESG não acelera, mas tensiona

Integrar ESG de forma madura não torna a decisão mais rápida. Torna-a mais exigente. Exige revisar premissas, aceitar conflitos e, em muitos casos, recusar caminhos que pareciam óbvios do ponto de vista estritamente financeiro.

Empresas que tratam ESG como critério começam por perguntas menos confortáveis: se essa decisão se sustenta diante dos riscos ambientais e sociais envolvidos; se amplia ou reduz a margem de manobra futura; se cria valor institucional ou apenas resultado imediato. Essas perguntas expõem tensões reais entre performance de curto prazo e sustentabilidade estrutural. Justamente por isso, muitas organizações resistem a integrá-las.

Um mundo com memória longa não perdoa incoerência estrutural

O ambiente em que as empresas operam hoje é marcado por maior transparência, rastreabilidade de dados e pressão regulatória crescente. Informações permanecem acessíveis, incoerências se acumulam e reputações não se reconstroem com a mesma facilidade de antes.

Decisões tomadas exclusivamente com base em eficiência ou timing de mercado tendem a se transformar, mais adiante, em problemas institucionais. O custo não aparece imediatamente, mas aparece. E, quando aparece, raramente é controlável.

Nesse contexto, ESG funciona menos como um manual de boas práticas e mais como um sistema de leitura do mundo real. Ele ajuda a identificar limites, antecipar riscos e compreender consequências que decisões tradicionais costumam subestimar.

O problema não é errar, é insistir no erro

Empresas não perdem legitimidade porque erram uma vez. Perdem porque insistem em modelos decisórios que já não respondem à complexidade do ambiente em que atuam. Persistem em tratar ESG como narrativa, quando ele deveria operar como critério.

A discussão, portanto, não é sobre aderir ou não ao ESG. É sobre quem decide, com base em quais parâmetros, e com qual horizonte de responsabilidade. Organizações que integram ESG à governança constroem algo menos visível, mas mais sólido: coerência institucional. É essa coerência que sustenta reputação, acesso a mercado e relevância no longo prazo.

Compartilhar

Sobre quem escreveu

Foto de Camila Guissoni

Camila Guissoni

Fundadora do Agora Regenera · Estratégia Institucional e Impacto

Atua na interseção entre estratégia institucional, posicionamento e agendas de impacto. Trabalha com organizações que precisam estruturar direção, alinhar frentes e transformar iniciativas dispersas em sistemas estratégicos coerentes. Formação em Direito Ambiental e MBA em ESG de Alto Impacto.

Ver no LinkedIn

Agora Regenera

Compliance que protege. ESG que gera valor.

Consultoria estratégica em sustentabilidade, gestão de riscos e conformidade regulatória para empresas que precisam agir com segurança e direção.

Fale com a gente

Newsletter

Quem decide bem, lê antes.

Uma vez por semana, o que importa sobre ESG, compliance e estratégia. Sem ruído.

Leia também

Estratégia Institucional

Por que empresas que fazem muita coisa continuam sem direção institucional

Reputação Empresarial

Reputação não é imagem: é consequência direta das decisões

Sustentabilidade

Sustentabilidade não é suficiente quando o modelo de negócio vira o risco